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domingo, maio 21, 2006

Capítulo 3

Roma, Wittemberg, Paris


O mundo fora de Noyon não estava parado. Várias coisas de grande alcance estavam acontecendo.
Leão X estava sentado no trono papal em Roma, vestindo a tríplice coroa do seu elevado oficio. Leão X era da família de Medici, o mais grandioso dos papas, o homem a quem se atribui a frase: "Que bom negócio tem sido para nós essa fábula de Cristo." Tenha assim falado ou não, a verdade é que a sua posição rendeu- lhe imensa fortuna. As suas riquezas eram incalculáveis, e fabulosos os seus tesouros artísticos.
Leão X estava também atarefado na construção da basílica de São Pedro em Roma, Mas o dinheiro não estava entrando como convinha, razão pela qual o papa inventou um novo método de aumentar a renda da igreja. Quem pagasse alguma coisa para a construção da basílica de São Pedro receberia uma indulgência, um certificado de papel que declarava o perdão dos pecados do contribuinte, Tal declaração era assinada pelo magnificente Leão X. Essas indulgências seriam eficazes, também, para os pecados de finados parentes que esperavam no purgatório. Em 1513, quando João Calvino tinha completado quatro anos de idade, o monge Tetzel começara suas viagens pelos estados germânicos com a finalidade de vender indulgências.
Fora a vinda deste monge Tetzel que agitara a vida de outro monge, um doutor em teologia que ensinava na Universidade de Wittenberg. Martinho Lutero começara a ensinar ali um ano antes do nascimento de João Calvino. Em 1517, quando o menino de Noyon tinha oito anos de idade, o professor de Wittenberg pregava as suas noventa e cinco teses na porta da Igreja do Castelo. Lutero proclamava que o perdão de pecados não podia ser comprado com o dinheiro das indulgencias. O perdão é gratuito. É um presente de Deus, não do papa ou da igreja. O som do martelo monástico em Wittenberg foi o sinal para o inicio de uma reforma para a qual muitos já estavam prontos e aguardando.
Nas montanhas da Suíça, Ulrich Zwingli estava pronto, O monge Sansão de Milão começara a vender indulgências ao povo suíço. Mas de tal força foi a pregação de Zwingli que Sansão não conseguiu licença para entrar na cidade de Zurich. A cidade agradecida convidou Zwingli para ser o pároco da igreja Grossmünster, onde iniciou seu novo trabalho com uma série de sermões sobre a palavra de Deus. Zwingli pregava as Escrituras que os homens não ouviam há séculos.
E os homens não tinham visto as Escrituras tampouco. Por isso foi um acontecimento notável o aparecimento em Basel, em 1516, de uma nova tradução grega do Novo Testamento pelo extraordinário sábio holandês, Erasmus. Era, sem dúvida, o redescobrimento de um livro perdido, na França, com seus quinze milhões de habitantes e sua extensa faixa litorânea, propicia para o comércio, as coisas estavam também acontecendo. A Reforma aqui começou com um magnífico professor da melhor universidade da Europa. O velho Jacques Lefèvre ensinava na Sorbonne, na cidade de Paris. Jacques Lefèvre era erudito, natural da província de Picardy, viajado pela África e Ásia. Tinha voltado para lecionar e escrever em Paris onde, com a idade de setenta anos, redescobriu as verdades da Bíblia.
No ano de 1512, quando Lutero, ainda desconhecido, buscava paz para a sua alma, quando João Calvino, com três anos de idade, acompanhava sua mãe nas suas rondas piedosas, Lefèvre publicou sua tradução latina das epístolas do apóstolo Paulo, juntamente com um comentário. "É Deus quem salva pela graça somente", disse o velho mestre.
Entre os alunos de Lefèvre havia um moço troncudo, com barba ruiva. Vindo de uma vila nas montanhas, o aluno era ativo, destemido, vivo e, no seu modo de falar, vigoroso. Estava a procura também. "Meu filho", disse-lhe o velho professor um ia, "é pela graça, somente pela graça. " Quase que instantaneamente, Guilherme Farel viu com os olhos da fé o que o erudito professor estava lhe dizendo. Daquele dia em diante uma ânsia audaz levava Farel por todos os cantos para proclamar as verdades da Palavra de Deus. "Deus renovará o mundo, dizia-lhe o velho Lefèvre, e você vivera para presenciar tal fato.
Outros seguiram o velho professor no afã de reaver a Bíblia. Na cidade de Meaux, perto de Paris, um bispo chamado Briçonnet abriu o Livro e ali encontrou novas respostas. Começou, então, a reformar as congregações sob sua responsabilidade. Os seus sermões eram bíblicos, coisa rara nas igrejas da época. Briçonnet era um homem de influência, sempre bem-vindo nos círculos palacianos, onde falava também. Margarida, a irmã do rei converteu-se, e Briçonnet colocou uma Bíblia em suas mãos.
A animação era grande. Lefèvre estava traduzindo o Novo Testamento para o francês para que pudesse ser lido pelo próprio povo. Trabalhava em Meaux, animado por Briçonnet. Farel veio a Meaux também e começou a trabalhar no meio do povo. Os cardadores de lã e os tecelãos de Meaux, os camponeses e os vitivinicultores da região todos liam e conversavam sobre a Bíblia. Suas igrejas se transformaram. Suas vidas também, Quando alguém se convertia naqueles dias a fé das Escrituras, dizia-se que tinha bebido no poço de Meaux.
A medida que a nova fé se espalhava pela França, apareciam inimigos para abafá-la. Entre estes se destacavam dois homens em altas posições: o sagaz Noel Beda, reitor da Universidade da Sorbonne, e o ambicioso Antoine u Prat, chanceler da França. De inicio, estes homens e seus auxiliares usaram ameaças e argumentos. Quando tais métodos falharam, começaram a usar fogo e o laço do enforcador.
No meio da refrega estava Francis I, o volúvel rei francês. Havia ocasiões em que ele ouvia sua irmã Margarida, a qual havia abraçado a nova fé com grande dedicação e estava sempre intercedendo pelos novos adeptos.
Com maior freqüência, porém, o rei era pressionado pelo grupo Beda-du Prat, os quais o acusavam de traição à santa igreja por permitir o aparecimento de graves heresias dentro do reino. Francis I tinha mais poder do que a maioria dos reis da sua época, os quais se curvavam diante da vontade do papa. Mas a França não se curvava. Os seus reis freqüentemente regateavam com o papa e, as vezes, impunham-lhe condições.
Mas o combate estava travado. Lefèvre foi expulso da Sorbonne. Em 1525 os seus escritos foram condenados, e o seu Novo Testamento queimado publicamente.
Mesmo assim ele continuava a trabalhar em Meaux. Publicações da autoria de Lutero começaram a aparecer na França, trazidas as escondidas e traduzidas para o povo. Estavam na lista negra da Sorbonne como leitura proibida, juntamente com um livrinho da autoria de Margarida, irmã do rei. Muitas outras publicações também constavam na referida lista, todas consideradas heréticas pela Universidade. Teriam que pagar caro os que fossem descobertos com tais publicações em seu poder. Mesmo assim o povo lia. Os tipógrafos imprimiam secretamente. A capital francesa fervia com o conflito. Assim era o ambiente em Paris quando João Calvino e seus companheiros de Noyon para lá foram em meados de 1523. Pelas ruas estreitas e tortuosas da capital, João dirigiu-se a casa de seu tio Richard Calvin, ferreiro por profissão.
Era agosto, no mês em que a fumaça de um sacrifício humano subia aos céus na Place de Greve. Um monge Augustiniano convertido foi amarrado ao pelourinho e queimado por causa de suas heresias luteranas. Foi o primeiro a morrer dessa maneira em Paris. O primeiro de muitos.

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