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domingo, maio 21, 2006

Capítulo 6

Estudante de Direito


Orléans era um lugar maravilhoso, a noventa quilômetros ao sul de Paris, a margem do Rio Loire. Os estudantes da sua velha universidade eram folgados e alegres.
Competiam no jogo de "raquetes" nas quarenta quadras de tênis. Navegavam no rio em pequenos barcos a vela. Tinham banquetes e festas incontáveis. A fama do professor de direito l'Rtoile e de seus colegas tinha atraído alunos de vários países.
Mas o estudante de Noyon não participava das festas e folias. Mais do que em Paris, ele se entregava aos estudos. Comia quase nada no jantar, para que sua mente estivesse desanuviada a noite. Dava-se a poucas horas de sono e, ao acordar, ficava deitado por urna hora recapitulando tudo quanto havia estudado na noite anterior, desenvolvendo a sua memória, enchendo-a de conhecimentos. Dentro de um ano João Calvino era mais conhecido como professor de direito do que como estudante. Lecionava, as vezes, como substituto de professores ausentes.
João Calvino estudava mais do que as matérias do curso. Havia em Orléans um homem chamado Wolmar, de origem germânica e com inclinações luteranas, excelente professor de grego. João Calvino solicitou-lhe aulas na matéria. Aprendendo a língua do Novo Testamento ele podia agora ler os seus livros na língua original. Lia com a mesma avidez outros escritos gregos. Wolmar possivelmente apontava-lhe o significado de certas passagens no Novo Testamento que eram caras a Lutero e aos reformadores.
João Calvino mais tarde dedicou ao seu professor de grego o comentário a Segunda Carta aos Coríntos. "Sob sua orientação", escreveu o autor na dedicatória, "acrescentei ao estudo de direito a literatura grega, da qual você era renomado mestre."
Após um ano em Orléans, João Calvino foi a Bourges, cidade destruída por César, reconstruída por Charlemagne, e agora fazendo parte da província que era governada pela irmã do rei, Margarida de Navarre. Ela tinha convidado o famoso professor de direito, Alciati, para vir da Itália lecionar na sua universidade. Wolmar, o professor de grego, foi também convidado. Certamente sentia-se mais animado a ser um luterano sob a proteção de Margarida. Muitos estudantes queriam ouvir Alciati. João Calvino agregou-se ao grupo que veio a Bourges. Na casa de Wolmar encontrou-se com um jovem tutelado daquele mestre. João Calvino tinha então uns vinte anos de idade. Não imaginava que aquele menino de doze anos, Teodoro Beza, algum dia se postaria ao seu lado e seria o seu sucessor numa cidade desconhecida de ambos.
Em 1531 João Calvino voltou a Paris por um curto período, onde recebeu notícias de que seu pai estava gravemente enfermo em Noyon.
E foi assim que o filho do advogado da igreja voltou à casa na praça do mercado. A residência estava deveras silenciosa por detrás das janelas de vidros esverdeados. Os homens da igreja não paravam para indagar sobre a saúde do seu advogado. Estavam ainda de mal com ele. Além disso, o seu irmão Charles, que havia se tornado um padre na região, tinha também contas a acertar com o clero. Com essas penumbras a cercá-lo, Gerard Calvin faleceu em maio de 1531. Seus filhos, conforme alguns, tiveram que apelar aos cônegos da catedral para que se permitisse o enterro do pai em campo santo em vez de cova desmarcada em campo aberto.
João Calvino, com vinte e dois anos de idade, permaneceu um mês em Noyon após a morte de seu pai. Ele e Charles entregaram ao clero as contas que seu pai lhes havia negado. João dirigiu um oficio religioso na pequena capela de Pont l'Eveque, da qual continuava a ser capelão assalariado. Durante os dias em casa ouvia as queixas amargas de seu irmão contra a igreja e o clero. Havia, até, motivo de riso na barba do bispo de Noyon. O bispo recusava-se a usar uma barba curta, contrariando assim uma regra a respeito existente em algum cânon eclesiástico. Chegou a catedral certo domingo, com suas vestes esplendorosas, vestindo a mitra e carregando a cruz dourada. Os cônegos, porém, fecharam-lhe na cara as enormes portas e disseram-lhe que tomasse a sua barbicha comprida e voltasse para casa. Dito e feito.
Os irmãos tiveram oportunidade de conversar sobre outros assuntos naqueles dias as idéias do velho professor Lefèvre e os panfletos de Lutero, o empedernido Beda e seus companheiros na Sorbonne, o volúvel Francis I e sua piedosa irmã, e a fumaça dos sacrifícios humanos em Paris e em Meaux.
João aproveitou o mês em casa para pensar também. O advogado da igreja de Novon estava morto. Seu segundo filho, que sempre tinha acatado sem reservas a vontade paterna, estava agora livre para decidir as coisas por conta própria, Mas a decisão de João Calvino não o levou a igreja, com sua cobiça e pensamento estereotipado, e nem a advocacia, com suas ânsias de fortuna. A vida escolástica e acadêmica o encantava. Queria aprender mais grego e latim, usar estas línguas para ler no original as suas literaturas, pesquisar os velhos manuscritos e comentá-los, buscar o retiro de uma sala cheia de livros. O que haveria de melhor, senão um pouco de dinheiro para alugar-se um quarto solitário, para comprar algumas parcas refeições e vinho, e estocar papel e tinta suficientes para escrever as suas idéias?
E onde, senão em Paris, poder-se-ia viver uma vida assim? O rei Francis I tinha acabado de tornar Paris mais atraente ao pesquisador. Pela insistência de Budé, o rei tinha fundado um novo Colégio de Conferencistas Reais, o que não deixou de irritar a comunidade universitária da Sorbonne. Francis I demonstrava assim o seu interesse no novo pensamento, chamado humanismo, que estava se espalhando pela Europa.
Em todos os cantos o povo começava a pensar por conta própria, ao invés de deixar que a igreja pensasse por ele. Os que podiam, liam em latim e grego a sabedoria de séculos anteriores, usando tais conhecimentos como fundamentação para o seu próprio pensamento. Este novo humanismo não era cristão. Tinha, porém, um grande valor positivo: animava o povo a pensar por si mesmo sem aceitar cegamente o que a igreja lhe dizia. Quem começava agora a estudar as Escrituras por si mesmo logo descobria o quanto a igreja daquela época tinha escondido ou ignorado. Na vida de muitos, Deus estava usando o humanismo para leva-los de volta à verdade.
Resolvido a tornar-se pesquisador nas letras, João Calvino deixou Noyon, caminhando os noventa quilômetros que o levariam de volta a Paris. Na sua chegada, um amigo ofereceu-lhe hospedagem, mas preferiu alugar um quarto estreito no dormitório do College Fortet. Estava mais perto das Faculdades onde assistiria conferências. Uma escada caracolada dava para o seu aposento numa seqüência enfileirada de quartos a semelhança de celas, onde tanto alunos quanto professores viviam e estudavam.
João Calvino, com grande avidez, reincetava seus estudos de grego e latim. Estudava hebraico também. Durante o dia assistia a varias conferencias e aulas. A noite, uma vela queimava até altas horas na sua cela de estudos. Ele estava aprendendo, estudando, escrevendo.
João se ambientava novamente ao círculo incomum de amigos, todos eruditos como ele. Estava de volta a casa de Cop, o médico do rei. Compartilhava da conversa erudita na residência de Budé. E não era essa a vida que ele queria?
Enquanto João Calvino dobrava-se sobre seus livros em Paris, Ulrich Zwingli, o reformador de Zurich, morria no campo de batalha. Tinha acompanhado, como capelão, as tropas Protestantes da sua cidade para repelir um ataque de outras tropas suíças que estavam lutando pela Igreja de Roma. Ao ajoelhar-se ao lado de um homem ferido para conforta-lo, Zwingli ficara ferido também e, mais tarde, morrera ao ser traspassado por uma lança. Vingativamente, o inimigo esquartejou e queimou o seu corpo. Era 11 de outubro de 1531.
Mas o estudante em Paris, caso tenha ouvido notícia da batalha de Kappel, não lhe dera maior atenção. Estava compenetrado nos seus estudos, e escrevia um livro. Não poderia saber que um dia adotaria a terra natal de Zwingli e tornar-se-ia conhecido como um reformador ainda maior do que aquele que havia sido morto aos quarenta e oito anos de idade, aos pés de uma pereira, numa colina, junto a estrada.

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