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domingo, maio 21, 2006

Capítulo 2

Um Advogado Astuto


Gerard Calvin estava arrumando a vida dos seus filhos. Ele precisava de dinheiro para a educação deles, a fim de prepará-los para trabalhar na igreja. Aproveitara-se, portanto, de um costume em voga na época e arrolara os rapazes como assalariados da igreja. Naqueles dias um menino podia ser nomeado para um cargo eclesiástico, receber o salário, pagar uma fração do salário a um padre adulto que fizesse o trabalho, e então ficar com os lucros para si mesmo. Era necessário conhecer pessoas bem postas para levar tais planos a bom termo. Era contra a lei, mas já ninguém dava bolas para esses regulamentos estéreis. Pois o exemplo vinha de cima.
Havia um papa, Benoit IX, com somente doze anos de idade. E um arcebispo de Rheims que fôra investido na sua alta função aos cinco anos de idade. E um bispo de Metz que mal havia completado quatro anos de vida.
O próprio bispo de Noyon, Charles de Hangest, aos quinze anos de idade já tinha recebido do papa toda a sorte de benefícios juntamente com as rendas que deles provinham. O povo não mais se espantava com essas barganhas pecaminosas dentro da igreja.
Gerard Calvin conhecia o pessoal bem postado de Noyon. Ele aguardava com paciência umas vaguinhas para seus filhos. Não tardou que Charles, o filho mais velho, se arrumasse como capelão de uma pequena capela quando mal tinha alcançado a idade mínima para cantar no coro da catedral. Três anos mais tarde, em maio de 1521, o jovem João recebeu o seu primeiro beneficio. Foi nomeado para uma das capelas de La Gesine, recebendo anualmente, como compensação, três medidas de milho de uma cidade e, da outra, a colheita de vinte trigais.
O pai pagava um padre para fazer o trabalho das capelanias e guardava os lucros para seus filhos. Era um negócio da China. Com doze anos de idade, João solenemente assinou os juramentos da capelania. Recebeu a tonsura logo após, um corte de cabelo especial que deixava rapada a coroa da cabeça do clérigo.
O novo capelão, com os seus trigais e a sua cabeça rapada, era agora um noviço. E tinha dinheiro para estudar. Caso houvesse uma brecha, era possível trocar-se um benefício por outro mais rendoso. Foi o que João fez com a idade de dezoito anos. Estava estudando em Paris na época, quando trocou de capelanias, passando a primeira a Antoine, seu irmão mais moço. Novamente, dali a dois anos, João faria nova troca, tornando-se capelão da vizinha cidade de Pont I'Evêque onde seu avô Calvin morava.
Os rapazes da família de Hangest, sobrinhos do bispo, eram bons amigos de João. Gostavam do filho do advogado da igreja embora ele não pertencesse a classe aristocrática deles. João brincava na mansão deles, e aprendeu a andar a cavalo. Estudou com eles sob a direção de um tutor particular. Mais tarde acompanhou-os ao College des Capettes, um educandário para meninos, em Noyon, assim chamado por causa dos capuzes usados pelos alunos.
Quando a escola dos capuzes não tinha mais a oferecer, os rapazes de Hangest se prepararam para continuar os estudos em Paris. A peste voltara para aterrorizar o povo de Noyon, o que era outro motivo para sair da cidade. Perguntaram a João se gostaria de acompanhá-los, o que o entusiasmou sobremaneira. Seu pai aproveitou a ocasião com alacridade. Os cônegos da catedral se reuniram e decidiram, com certa relutância, que o ordenado da capelania de João não 1he seria cortado ao deixar Noyon.
No verão de 1523, os rapazes de Hangest e o filho do advogado da igreja saíam a cavalo da cidade que os vira nascer, agora infestada pela peste. Com grande expectativa, galopavam em direção a grande cidade de Paris, noventa quilômetros a sudoeste de Noyon. João Calvino, com quatorze anos de idade, entrava num mundo novo de pessoas, lugares e idéias. Ele não voltaria mais a Noyon para residir.

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