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domingo, maio 21, 2006

Capítulo 1

João Calvino (1509-1564)


O Primeiro Lar de Calvino


Com as mãos a proteger os olhos, a mulher e o menino sairam da meia-luz da catedral para a praça ensolarada onde o burburinho da feira contrastava com a solidão do templo.
Como sempre, a praça estava apinhada de gente e animais. Os moleiros já, começavam a cutucar seus asnos para que se encaminhassem de volta a roca. Voltariam com seus lombos vazios das cargas de fubá vendidas na feira. Homens a cavalo matraqueavam sobre o calçamento irregular. Aqui e ali, com vestes pretas e marrons, padres e monges iam a caminho.
A mulher quase nada via disso tudo. Seus olhos ainda estavam embaciados pela emoção das suas confissões. Seus lábios mal haviam cessado suas preces aos santos. Consideravam-na mulher piedosa. Diziam até que ela era.a tão piedosa quanto bela, o que significava ser piedosa de verdade. Mas o menino, embora meio escondido pelos largos panos do xale materno, via tudo com seus pequenos mas matreiros olhos.
Pisando entre fardos e bruacas e esbarrando entre cotovelos e bichos esparramados pelo centro da cidade, mãe e filho atravessam a praça e chegam em casa. Entram de mansinho, porquanto o lar era um escritório também. Atras dos vidros esverdeados das janelas, o chefe da casa, sentado a sua mesa, cuidava dos negócios da igreja. Gerard Calvin era advogado dos padres e cônegos. Era secretário do próprio bispo. Os homens que trabalhavam para a igreja estavam sempre entrando e saindo por essa porta. Eles questionavam e gritavam nos seus ouvidos. Maquinavam e faziam intrigas para melhorar a situação de cada qual. E, na hora do aperto, precisavam do seu advogado para ajudá-los. Gerard Calvin trabalhava infatigavelmente na sua importante tarefa a favor dos homens da igreja. Era um homem astuto, respeitado por todos. Era sagaz, também, no tratamento dos seus próprios interesses.
O advogado da igreja estava galgando posição no seu pequeno mundo. Vinha fazendo assim desde o dia em que deixara a vila do seu pai e largara o oficio paterno, Por que ser tanoeiro, fabricante de barris e pipas, quando se poderia manejar uma pena em vez de um martelo? O filho do tanoeiro instalara-se, pois, em Noyon, cidade francesa amuralhada, a meia hora da casa de seu pai. Diziam que Gerard Calvin tivera sorte ao casar-se com Jeanne le Franc, bela filha de um rico hoteleiro aposentado. O primeiro filho chamava-se Charles.
Os dois seguintes morreram na infância. Então viera João, o menino dos olhos vivos, nascido as treze horas e vinte e sete minutos do dia 10 de julho de 1509. Depois dele, nascera mais um menino, chamado Antoine, Jeanne le Franc Calvin falecera quando seu filho João tinha apenas três anos de idade. Uma madrasta veio residir no lar dos três meninos, acrescentando duas filhas a família.
Embora raras vezes mencionasse os primeiros anos da sua vida, João, anos mais tarde, descreveu uma breve peregrinação que ele havia feito com sua mãe. Por duas horas caminharam juntos pelo vale até chegarem ao santuário de Sant'Ana, segundo diziam, avo terrena do Senhor. Erguido por sua mãe, o menino João beijara a relíquia preciosa da caveira de Sant'Ana que estava exposta num receptáculo dourado, cercado de velas e flores e das faces reverentes de outros romeiros. Diziam que esse pedaço de osso era uma relíquia toda especial. O sacrário, por conseguinte, estava sempre repleto. Podia-se, no entanto, encontrar relíquias em Noyon também, todas adoradas como se fossem verdadeiras.
Naqueles dias o povo se dispunha a crer em qualquer coisa. A igreja dizia que havia alguns cabelos de João Batista, um dente do Senhor, um pedaço de maná do Velho Testamento, e algumas migalhas que sobraram da primeira multiplicação dos pães. Havia na catedral um fragmento da coroa de espinhos. Havia, também, relíquias de menor importância, tais como os restos de um tal Santo Elói. Os monges do mosteiro e os padres da catedral sempre discutiam sobre a verdadeira localização dos ossos daquele santo: se no mosteiro ou na catedral. Era uma discussão cerrada e interminável. Nem mesmo o parlamento francês conseguiu solucionar o problema.
Durante quatorze anos o menino João morou em Noyon, na província francesa de Picardy. Dez mil pessoas habitavam dentro dos muros da velha cidade. A cidade já era antiga naquela época. Quinhentos anos após Cristo, Noyon já era sede de bispado. Fora aqui que o grande Charlemagne foi coroado rei no ano 768. Uns quinhentos anos mais tarde, a grandiosa catedral foi construída, pedra sobre pedra, até que a sua imponente estrutura dominava toda a paisagem. Noyon estava sobrecarregada de padres, monges, cônegos, capelães, e de toda espécie de empregados eclesiásticos. Cada qual estava seguro dos seus direitos pessoais e pugnava pela sua promoção. O poderoso bispo, um fidalgo da nobre família de Hangest, governava a todos. A catedral era o centro da vida citadina. Além dela, havia uma abundância de mosteiros, conventos, igrejas e capelas, cada qual com seu sino. E cada sino badalava freqüentemente. Dizia-se que em Noyon não se podia falar três palavras sem a interrupção de um sino. O badalar dos sinos ecoava pelo vale. Nos dias de festa, o côro metálico alcançava os ouvidos dos barqueiros que desciam o Rio Oise, com suas barcaças, em direção ao mar.
A distância, os montes purpurinos, que apanhavam o pôr-do-sol, abrigavam, também, as notas soltas que conseguiam chegar até lá. Foi nesse pequeno mundo amuralhado, de santuários e relíquias, de procissões e festas, de círios, sinos e imagens, que cresceu o segundo filho do advogado da igreja. Em tudo ele participava com devoção, lembrando os olhos embaciados de sua mãe. Do seu tamborete, no canto da casa, também ouvia as vozes que vinham da escrivaninha do seu pai. Um clérigo queria o fruto de mais vinhas. Outro desejava o grão de maiores campos. Estavam sempre querendo mais coisas para si mesmos. Queriam ficar mais ricos, mais admirados, mais acomodados. Talvez em sua cama, a, noite, João imaginasse com os pensamentos de rapaz:
O Senhor, cuja imagem em tamanho natural estava pendurado naquela cruz na catedral, sangrando, trajando somente um pano nos seus lombos e uma coroa de espinhos - na terra Ele não possuía coisas. Estaria Ele contente com estes homens que trabalhavam para Ele na igreja? Estaria Ele alegre vendo-os defraudando, ambicionando posições mais altas, vestindo trajes esplendidos, preocupados unicamente consigo mesmos? Que estaria o Senhor achando de tudo isso?

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